Marina Costa

"A vida é enigmática – penso: como eu, tão pequena diante do mundo, poderei mudá-lo? Não fui uma daquelas crianças que brincavam no bairro e encharcavam a barra de suas calças nas poças d'água de chuva, eu lia. Olhava de longe, sorrateiramente, pela janela do quarto. Observava seus sorrisos, seus olhos desvendadores e seus movimentos suaves. Almas tênues que se ensoberbeceriam com o tempo. Nunca senti vontade de me tornar uma deles, pelo contrário, tentava ao máximo evitar meu destino. Sabia que os humanos são estupidamente ansiosos e em seus anseios pela felicidade me faziam indagar o porquê da procura de algo que não se sabe se existe. Me via cética, porém, por mais que evitasse, tinha a infeliz certeza de que algum dia seria assim. Retorno a minha leitura – qual seria o motivo mais cabível para deixar de ler? Enquanto todos esbravejavam seus espíritos valentes, eu vivia a melhor e maior aventura sentada no sofá, na cama, na rede. Virava os olhos e concluía – nunca irei mudá-lo. O mundo não é tudo que posso conquistar. Talvez construa a minha própria essência e o meu próprio mundo dentro de mim e aí sim viverei além da existência." – (Afago)