Alberto Santos

Alberto Santos

Ainda criança, nos primeiros anos de escolaridade, o contacto com a geografia deu-me consciência perfeita que havia muito mais mundo que o que se descortinava das janelas da casa de meus pais.

Recordo-me perfeitamente, consciente da vastidão da terra, de me interrogar se algum dia, ultrapassando os impecilhos serranos da Estrela e do Caramulo, haveria de conhecer "outros mundos e outras gentes"!

Nunca, nessas ocasiões, me passou pela cabeça que muito em breve, sem qualquer anuência minha, conheceria os balanços ritmados do comboio que me conduziriam à grande cidade: Lisboa.

O Pátria (um "velho" navio da extinta Companhia Nacional de Navegação), para mim, foi o encantamento seguinte. Para além de me dar a oportunidade de um contacto estreito e continuado com o mar que via pela primeira vez, deslumbravam-me o luxo e as mordomias a bordo. Mas, como "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe", ao fim de 15 dias de mar azul e deleite continuado, o navio atracou em Luanda, transplantando-me para solo africano.

A partir dos 12 anos, as terras vermelhas de Angola passaram a ser o palco da transformação da criança que era no homem que regressou 23 anos mais tarde.

Foi em Angola que estudei, cresci, sonhei um mundo melhor, casei, tive filhos, assisti ao ocaso do ciclo colonial e presenciei o nascimento de uma nova nação, em parto longo, atribulado e doloroso. Foi lá que interiorizei valores fundamentais, descobri perspectivas diferentes de ver e estar no mundo, lutei com as dificuldades da vida em situação de guerra, aprendi as artes da sobrevivência e coleccionei amizades profundas e imorredoiras.

Em 1985 encerrei o capítulo Angola do livro da minha vida.

Regressado, aos horizontes serranos da infância, preferi a visão litorânea do mar português e por cá me mantive até agora. Primeiro, junto ao mar; hoje no topo da colina que me permite descortinar as lonjuras das planícias introdutórias do Alentejo.

Sair daqui, sempre que possível, mas apenas temporariamente: de férias, para alargar horizontes sem repetir destinos. O homem que sou, produto de muitos mundos não rejeita nenhuma das raízes daquilo que sou! Com mais razões do que muitos dos que se reclamam de uma angolanidade apenas descoberta despois do desembarque na Europa, assumir-me-ei como um português híbrido, sui generis, moldado e marcado profundamente pela minha vivência em terras angolanas.